Linha do tempo: os momentos que marcaram a história da Doença de Parkinson!

Uma jornada que começa com os primeiros sinais clínicos e avança até os tratamentos mais inovadores.

Para os apaixonados por história e curiosidades, esse post é para vocês! Vamos traçar os principais marcos da Doença de Parkinson - desde os primeiros relatos até as terapias mais modernas.


Séculos antes de Cristo: primeiras descrições do que supomos ser a Doença de Parkinson

A menção mais antiga de sintomas que hoje associamos à Doença de Parkinson vem da medicina ayurvédica, na Índia, entre os séculos XII e XV a.C. Os documentos da época descrevem uma condição chamada Kampavata (kampa significa tremor; vata, a energia que governa o movimento), caracterizada por salivação, depressão e tremores. Os tratamentos ayurvédicos incluíam o uso da masabaldi pacana (derivado da Mucuna pruriens, uma planta rica em compostos dopaminérgicos), suplementos com propriedades ansiolíticas e práticas como yoga.

Na China, textos antigos também descrevem sintomas compatíveis com a Doença de Parkinson, referidos como Changzheng (síndrome tremulante da senilidade), tratados com ervas medicinais, Tai Chi e acupuntura. Há ainda registros semelhantes em documentos da antiga Pérsia.


Século XIX: descrição clínica por James Parkinson e avanços com Charcot

O grande marco histórico na trajetória da doença aconteceu em 1817, com a publicação do ensaio Essay on the Shaking Palsy (Ensaio da Paralisia Agitante), de James Parkinson, em Londres. Nessa obra, ele descreveu seis pacientes: dois eram seus pacientes, três foram observados casualmente e um foi simplesmente visto andando na rua. Isso mostra como os sintomas da doença podem ser reconhecidos pela observação clínica.

O neurologista francês Jean-Martin Charcot, considerado o pai da neurologia moderna, renomeou a condição para Doença de Parkinson em homenagem a James. Curiosamente, por ser francês, ele usou o termo Maladie de Parkinson. Quando traduzido para o português, tornou-se Mal de Parkinson (erroneamente, pois maladie significa doença e não mal) - uma tradução que hoje evitamos por seu potencial pejorativo.

Charcot contribuiu muito mais do que com o nome: identificou a bradicinesia como sintoma cardinal, reconheceu os dois principais tipos da doença (forma tremulante e rígido-acinética), apontou que o tremor não é obrigatório para o diagnóstico e descreveu sintomas não motores, como disautonomia, fadiga e dor. Também explorou a terapia vibratória, observando melhora dos sintomas em pacientes após longas viagens de trem ou carruagem.


Fim do século XIX: busca pela origem da lesão cerebral

O final do século XIX foi marcado pela busca de onde, exatamente, a doença se originava no cérebro. Charcot ajudou a refinar os critérios clínicos, mas não conseguiu localizar a lesão estrutural. Seus discípulos continuaram as investigações e passaram a suspeitar dos gânglios da base, regiões profundas do cérebro envolvidas no controle motor.

O interesse aumentou após a epidemia de gripe no pós-Segunda Guerra Mundial, quando muitos pacientes desenvolveram encefalite letárgica, com sintomas semelhantes ao Parkinson - essa condição ficou conhecida como Doença de von Economo, e foi retratada no filme Tempo de Despertar (1990), estrelado por Robin Williams e Robert De Niro.

Foi nesse contexto que surgiram dois grandes marcos:
- Heinrich Lewy descobriu os corpos de Lewy, a marca registrada da doença de Parkinson (acúmulos da proteína alfa-sinucleína tóxica dentro das células, hoje entendida como a principal causadora da doença).
- Constantin Tretiakoff identificou a substância negra como o principal local de degeneração na doença.


Início do século XX: surgimento da levodopa, o período de lua de mel e introdução da cirurgia

Os cientistas passaram a sintetizar a dopamina e seu precursor, a levodopa, e descobriram seu papel no funcionamento cerebral.
O ponto de partida foi o trabalho de Arvid Carlsson, que demonstrou melhora nos movimentos de ratos tratados com levodopa após terem seus níveis de dopamina bloqueados com reserpina - trabalho que lhe rendeu o Prêmio Nobel em 2000.

Depois, Walter Birkmeyer aplicou levodopa intravenosa em pacientes com Parkinson e observou melhora marcante - há vídeos em preto e branco mostram resultados quase milagrosos. Porém, a via intravenosa demandava grandes volumes e causava efeitos colaterais, o que limitava seu uso.

George Cotzias revolucionou ao administrar a levodopa por via oral, em doses crescentes, como fazemos hoje. Depois, em 1975, foi criada a combinação com carbidopa, que inibe a degradação da levodopa antes de chegar ao cérebro - surgia o Sinemet.

Ainda na primeira metade do século XX, surgiram as primeiras cirurgias. Em um caso acidental, Dr. Cooper lesionou os gânglios da base durante uma neurocirurgia (a partir da ligadura errônea de uma artéria) e observou melhora nos sintomas parkinsonianos. Isso impulsionou o desenvolvimento de técnicas de lesão cerebral como:
- Palidotomia (lesão do globo pálido interno)
- Talamotomia (lesão do tálamo)
Essas cirurgias utilizavam estereotaxia, com um guia inserido no cérebro que causava lesões térmicas. Apesar da eficácia, com a chegada da levodopa, o tratamento medicamentoso passou a ser priorizado nas fases iniciais (visto a relação risco versus benefício).


Fim do século XX: a era da levodopafobia e o retorno da cirurgia

Como diz o ditado, tudo que é bom dura pouco. Com o tempo, após o período de lua de mel com a medicação, pacientes tratados com levodopa desenvolveram as flutuações motoras (efeito curto, discinesias), o que gerou receio no uso da medicação - a chamada levodopafobia.

Novas medicações surgiram (amantadina, apomorfina, pramipexol, inibidores da MAO-B), mas nenhuma com o mesmo impacto da levodopa. Isso reacendeu o interesse pelas cirurgias, aumentando a realização de palidotomias e talamotomias.

Em paralelo à realização de lesões nos gânglios da base via neurocirurgia para tratamento da doença de Parkinson, os experimentos com estimulação cerebral profunda (DBS) começaram a ser estudados nas décadas de 1960 e 1970. Após aprimoramento, a técnica foi introduzida pelo grupo de Alim-Louis Benabid, de Grenoble. A aprovação do DBS para tratamento de tremor e Parkinson veio só em 1997.
Vejam que, embora as técnicas cirúrgicas - especialmente o DBS - ainda soem como algo recente para muitas pessoas, elas já vêm sendo utilizadas desde meados do século XX, acompanhando, em paralelo, a evolução dos tratamentos medicamentosos.


Século XXI: popularização das terapias avançadas

Após a aprovação do DBS pelo FDA, sua utilização foi gradualmente se consolidando na prática clínica. Com o tempo, a técnica passou por importantes avanços, como o uso de neuroimagem para guiar o posicionamento preciso dos eletrodos e o desenvolvimento de ferramentas mais sofisticadas para a programação personalizada de cada paciente. Atualmente, o DBS é considerado um dos tratamentos mais eficazes para o controle das flutuações motoras e, por isso, muitos especialistas o descrevem como a segunda lua de mel da doença de Parkinson - a primeira sendo proporcionada pela levodopa, que melhora os sintomas inicialmente, até o surgimento das flutuações motoras incômodas; já o DBS marca um novo período de alívio desses sintomas.

No Brasil, a técnica já conta com aprovação da Anvisa e está disponível por meio dos planos de saúde e também em alguns centros do SUS. Na nossa prática clínica, oferecemos essa opção aos nossos pacientes e temos observado, na prática, o impacto significativo que o tratamento traz à qualidade de vida deles. Além disso, seguimos acompanhando de perto a evolução dessa tecnologia, com o surgimento de novos dispositivos e o desenvolvimento do chamado DBS adaptativo - uma inovação promissora que permitirá o ajuste automático da estimulação por meio de inteligência artificial.

Como nem todos os pacientes podem - ou desejam - se submeter ao DBS ou a outras intervenções cirúrgicas, técnicas não invasivas passaram a ser exploradas como alternativas terapêuticas. Entre elas, a que mais recebeu investimentos ao longo dos últimos anos foi o HIFU (High Intensity Focused Ultrasound), ou Ultrassom Focado de Alta Intensidade. Essa tecnologia utiliza feixes de ultrassom concentrados em um ponto específico do cérebro para provocar uma lesão térmica - de maneira análoga ao efeito de uma lupa que concentra os raios do sol.
O HIFU vem sendo investigado desde a década de 1950. Inicialmente, era necessário realizar uma craniotomia (remoção de parte do osso do crânio) para permitir a passagem dos feixes de ultrassom. No entanto, a partir da década de 1990, com o desenvolvimento de novos transdutores e o uso de técnicas guiadas por ressonância magnética, tornou-se possível realizar o procedimento sem a necessidade de abrir o crânio.
Vale destacar que o HIFU promove uma lesão em pontos específicos dos circuitos cerebrais, como os gânglios da base, assim como faziam as cirurgias tradicionais utilizadas no tratamento da doença de Parkinson no século XX (como a palidotomia e a talamotomia). A diferença é que, agora, essa intervenção pode ser feita de forma não invasiva. Por isso, o HIFU pode ser considerado uma releitura moderna das técnicas lesionais de meados do século passado.
O uso do HIFU no manejo da doença de Parkinson começou a ser investigado em 2012 e, em 2021, a técnica foi aprovada pelo FDA para o controle do tremor unilateral. No Brasil, essa tecnologia passou a ser oferecida recentemente, em 2025.

Mas as terapias avançadas para a doença de Parkinson não se limitam a lesões cerebrais ou ao implante de eletrodos! Também houve avanços importantes nas formulações da levodopa, com o objetivo de otimizar sua entrega no organismo de maneira mais contínua e eficaz. Aqui destacamos duas dessas inovações:
- Levodopa em gel intestinal (Duopa Pump): Desenvolvida na Suécia na década de 1990, essa formulação permite a infusão contínua da levodopa em gel diretamente no intestino delgado, por meio de um tubo jejunal implantado cirurgicamente na parede abdominal. A infusão ocorre durante as 16 horas em que o paciente está acordado, contornando problemas relacionados ao esvaziamento gástrico e promovendo um controle mais estável dos sintomas motores. É um tratamento amplamente utilizado em diversos países, embora ainda não esteja disponível no Brasil.
- Foslevodopa/foscarbidopa de infusão subcutânea: Nessa formulação líquida, a levodopa é infundida no tecido subcutâneo de forma contínua, durante 24 horas, evitando os desafios da absorção intestinal. Essa abordagem representa um verdadeiro modelo de estimulação dopaminérgica contínua. Já está em uso clínico no Japão, Canadá, Estados Unidos e em vários países europeus. A previsão é que essa tecnologia chegue ao Brasil nos próximos meses ou até 2026. Inclusive, temos um post completo sobre ela na Comunidade Parkinson News!


Vejam que, até o momento em nossa linha do tempo - especialmente no que diz respeito aos tratamentos - ainda não falamos sobre terapias curativas. Isso porque os principais avanços que transformaram a história da Doença de Parkinson geraram alívio dos sintomas, e não a cura.

Seguimos na expectativa pelo surgimento de tratamentos capazes de modificar o curso da doença, ou seja, que atuem diretamente sobre os mecanismos que levam à sua progressão. Algumas abordagens promissoras ainda estão em fase de estudo, como os anticorpos contra a alfa-sinucleína e as terapias gênicas, mas até o momento não há resultados definitivos.

Estamos acompanhando de perto cada passo da evolução da ciência nesse campo - e sempre que um novo marco surgir, vocês serão os primeiros a saber por aqui.

Com carinho,
Dra. Joyce e Dra. Isabela


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