Na batalha de argumentos sobre o uso do canabidiol na doença de Parkinson, qual lado vence?

Com a avalanche de informações circulando nas mídias sociais, pode ser difícil distinguir o que é confiável daquilo que não é. Neste post, vamos esclarecer esse cenário, apresentando os fatos e as especulações sobre o uso do canabidiol (CBD) na Doença de Parkinson.

Em um verdadeiro cabo de guerra, de um lado estão os fatos, do outro, as especulações sobre o uso do canabidiol na Doença de Parkinson. Mas afinal, para qual lado essa corda tende a ceder?

O canabidiol (CBD) é um dos principais fitocanabinoides extraídos da planta Cannabis sativa - popularmente conhecida como maconha, devido ao seu uso recreativo. Diferente do tetrahidrocanabinol (THC), o composto psicoativo mais famoso da planta, o CBD não provoca efeitos eufóricos. Pelo contrário, destaca-se por seus potenciais efeitos terapêuticos, como ação analgésica e ansiolítica.

O interesse científico nos derivados canabinoides está relacionado à sua interação com receptores do sistema nervoso que regulam a liberação de neurotransmissores como dopamina, GABA e glutamato. Esses são os receptores canabinoides CB1, predominantemente encontrados no sistema nervoso central, e CB2, presentes principalmente no sistema periférico. Pela sua alta expressão nos gânglios da base - estruturas cerebrais envolvidas no controle motor - os receptores CB1 tornaram-se alvos promissores para o desenvolvimento de terapias voltadas a distúrbios do movimento, especialmente a Doença de Parkinson.

O uso do canabidiol na Doença de Parkinson não é exatamente uma novidade, embora tenha ganhado notoriedade apenas recentemente, impulsionado pelo hype e pela divulgação massiva nas redes sociais nos últimos anos.

Relatos do uso medicinal da cannabis em pacientes com Parkinson datam do século XIX, especialmente nos registros do grupo liderado por Jean-Martin Charcot - neurologista francês considerado um dos pais da neurologia moderna. À época, a cannabis era apenas uma entre várias substâncias naturais consideradas experimentais no tratamento dos distúrbios neurológicos. Outros exemplos incluíam o ópio, a cicuta (uma planta tóxica, cuja espécie Conium maculatum ficou famosa por ter sido usada na execução do filósofo Sócrates na Grécia Antiga), o arsênio e compostos derivados do centeio.

O interesse científico contemporâneo em torno do canabidiol na Doença de Parkinson ganhou fôlego a partir da legalização da cannabis medicinal na Califórnia, em 1996. Desde então, houve um crescimento exponencial no número de estudos voltados para a aplicação terapêutica do CBD em diversas condições neurológicas. Atualmente, estima-se que cerca de 1,2 milhão de norte-americanos façam uso da cannabis com fins medicinais.

Seguindo a tendência de ampla divulgação do CBD na mídia e o crescente número de estudos científicos sobre o tema, observou-se, nos últimos anos, um aumento expressivo no interesse dos próprios pacientes com Doença de Parkinson pelo uso do canabidiol.

Um exemplo marcante desse cenário ocorreu em 2023, quando uma personalidade política revelou publicamente seu diagnóstico de Parkinson e o uso da cannabis medicinal como seu principal tratamento. A repercussão desse relato gerou um pico nas buscas sobre o tema na internet e levou a um aumento considerável nos questionamentos feitos por pacientes durante consultas médicas.

Para se ter uma ideia da dimensão desse interesse, dados de questionários revelam que 85% dos neurologistas nos Estados Unidos já foram abordados por seus pacientes sobre o uso de CBD. Segundo a Michael J. Fox Foundation - instituição criada pelo ator Michael J. Fox, protagonista do filme De Volta para o Futuro e diagnosticado com Parkinson -, 44% dos pacientes norte-americanos com a doença já utilizaram produtos derivados da cannabis.

Diante desse cenário, é essencial promover um raciocínio crítico baseado em informações confiáveis e evidências científicas. Por isso, vamos apresentar os fatos e desmontar os mitos que envolvem o uso do CBD na Doença de Parkinson.


Começando com os fatos (lembrando que fatos se referem a acontecimentos reais, verdades comprováveis ou evidências sustentadas por estudos científicos bem desenhados):

1. O CBD pode ajudar em sintomas não motores da Doença de Parkinson.
Estudos indicam que o canabidiol tem potencial terapêutico para aliviar sintomas não motores da doença, especialmente dor, distúrbios do sono e ansiedade. Em alguns pacientes com Parkinson, observou-se melhora clínica com o uso do CBD. No entanto, ele não deve ser considerado a primeira escolha para tratar esses sintomas, tampouco a única opção. Deve ser visto como uma terapia complementar, sempre com orientação médica.

2. O uso medicinal da cannabis é permitido no Brasil desde 2015.
Desde então, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autoriza o uso de produtos derivados da cannabis para fins medicinais, mediante prescrição com receituário azul, por se tratar de uma substância controlada.
No entanto, o SUS (Sistema Único de Saúde) ainda não disponibiliza a medicação de forma padronizada para pacientes com Doença de Parkinson. As farmácias de alto custo também não oferecem o produto, exceto em casos muito específicos, como epilepsias refratárias em alguns estados, a exemplo de São Paulo, onde há fornecimento pelo governo estadual apenas para determinadas condições.


E agora, o que há de especulação? (Lembrando que especulações referem-se a suposições, hipóteses ou ideias ainda não confirmadas por evidências científicas robustas.)

1. O CBD é neuroprotetor na Doença de Parkinson (falso).
Alguns estudos em modelos animais, como camundongos e ratos, mostraram que o uso de CBD e THC pode reduzir o estresse oxidativo e a inflamação no sistema nervoso central. Com base nesses achados, levantou-se a hipótese de que esses compostos poderiam proteger os neurônios dopaminérgicos e, portanto, retardar a progressão da Doença de Parkinson.
Entretanto, esses resultados ainda não foram replicados em estudos com humanos. Além disso, como os pacientes participantes desses estudos não apresentaram melhora dos sintomas motores com o uso de CBD (isolado ou combinado com THC), não é possível afirmar que o composto tenha ação neuroprotetora ? muito menos que seja capaz de interromper a progressão da doença ou promover sua cura.

2. O CBD melhora os sintomas motores da Doença de Parkinson (falso).
Essa afirmação, infelizmente, se encaixa como uma forma de desinformação. E neste tópico, vale a pena aprofundarmos a discussão, trazendo um fato e dois pontos importantes:
- Fato: Quando falamos em sintomas motores da Doença de Parkinson, estamos nos referindo aos sinais clássicos da enfermidade: tremores, rigidez e lentidão dos movimentos (bradicinesia). Todos os estudos clínicos bem desenhados, controlados e randomizados que avaliaram o impacto do CBD nesses sintomas NÃO encontraram benefícios significativos.
- 1º ponto importante - importância dos estudos bem desenhados: Esse tipo de estudo é essencial para minimizar o chamado efeito placebo, um fenômeno em que o paciente apresenta melhora após receber uma substância inativa, apenas por acreditar estar sendo tratado. Estudos sem grupo controle, sem duplo-cego (quando nem o paciente nem o avaliador sabem quem está recebendo o tratamento real ou o placebo) estão sujeitos a viés do avaliador e têm pouca validade científica.
- 2º ponto importante - a complexidade da interpretação clínica: Muitos pacientes com Parkinson relatam piora de sintomas motores, como tremor, discinesia ou distonia, em momentos de ansiedade ou estresse. Assim, é possível que a aparente melhora após o uso de canabinoides esteja mais relacionada à redução da ansiedade um efeito indireto do que a um impacto real nos circuitos motores comprometidos pela doença. Isso torna a interpretação clínica mais complexa e exige cautela.

3. O CBD, por ser derivado de uma planta, é isento de efeitos adversos (muito falso).
Essa é uma crença bastante comum, mas incorreta. O fato de um composto ser natural não significa que ele seja isento de riscos. Produtos naturais, medicamentos fitoterápicos e até suplementos vendidos livremente podem provocar efeitos colaterais - e com o CBD, isso não é diferente.
- Efeitos adversos leves: Tontura, náuseas, sensação de desequilíbrio.
Um estudo publicado em 2024 na revista da Movement Disorders Society demonstrou que o uso de CBD combinado com THC, por duas semanas, não melhorou os sintomas motores em pacientes com Parkinson e ainda mostrou uma tendência à piora da função cognitiva ? ou seja, os pacientes apresentaram lapsos de memória e dificuldade de concentração.
- Efeitos adversos importantes: Alterações na função hepática (enzimas do fígado elevadas), o que exige monitoramento clínico rigoroso, especialmente em pacientes idosos ou que já fazem uso de múltiplas medicações.
- Efeitos a longo prazo: Ainda desconhecidos. A maioria dos estudos clínicos avaliou os efeitos do CBD por períodos curtos (geralmente menos que 6 meses). Há evidências em estudos com pessoas saudáveis mostrando que o uso crônico da maconha pode estar associado a uma redução média de 6 pontos no QI. Isso levanta dúvidas sobre os possíveis impactos do uso prolongado de derivados da cannabis, especialmente em uma população naturalmente mais vulnerável, como os idosos com Doença de Parkinson.
- Risco de contaminação dos produtos: Um aspecto raramente discutido, mas extremamente relevante. Uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos, em 2022, encontrou altos níveis de contaminantes (como pesticidas, solventes e resíduos inorgânicos) em produtos à base de cannabis vendidos com fins medicinais. Essa descoberta gera um alerta ainda maior em relação a produtos adquiridos de pequenas empresas ou organizações que não passam por fiscalização sanitária rigorosa. O problema é especialmente preocupante, pois pesticidas são neurotóxicos - e, inclusive, são considerados fatores de risco ambientais para o desenvolvimento da Doença de Parkinson, por seu potencial de dano às células dopaminérgicas.

Em resumo, o uso de CBD na Doença de Parkinson:
- É autorizado pela Anvisa no Brasil desde 2015, mas ainda não é fornecido pelo SUS para essa finalidade específica. A aquisição depende de prescrição médica com receituário de controle especial.
- Não cura, não protege contra e não desacelera a progressão da Doença de Parkinson. Até o momento, não há evidências científicas em humanos que sustentem essas alegações.
- Não é eficaz no tratamento dos sintomas motores - como tremor, lentidão (bradicinesia) e rigidez muscular - conforme demonstrado em estudos clínicos bem conduzidos. No entanto, pode ser considerado como alternativa complementar em casos de dor, distúrbios do sono e ansiedade que não estejam bem controlados com as abordagens convencionais. Por isso, desconfie de propostas terapêuticas que utilizem exclusivamente o CBD para tratar a Doença de Parkinson ou de discursos que promovam sua eficácia ampla e inespecífica sobre os sintomas motores.
- Não aumenta a mortalidade nem está associado, até o momento, a efeitos adversos graves com alta frequência. No entanto, efeitos colaterais leves são comuns, como tontura, náusea e desequilíbrio, além de haver indícios de piora da memória já no uso em curto prazo, especialmente quando combinado com THC.
- A segurança dos produtos ainda é uma preocupação: pouco se discute sobre o grau de contaminação por pesticidas, solventes e metais pesados nos medicamentos derivados da cannabis, especialmente aqueles sem fiscalização sanitária adequada. Este é um ponto importante, já que pesticidas são neurotóxicos e reconhecidos como fatores de risco ambientais para a Doença de Parkinson.

Vendo por essa perspectiva, os fatos apresentados são mais sólidos, enquanto as especulações ainda carregam diversas controvérsias e inverdades. Isso, ao nosso ver, faz a corda pender - como já era de se esperar - para o lado da evidência científica.

Mas é importante dizer: o CBD não deve ser encarado como um caso perdido na Doença de Parkinson. Ainda há um caminho a ser trilhado. Precisamos de mais estudos de qualidade, que nos ajudem a responder questões importantes, como:

- Qual seria a melhor dose?
- Qual a melhor proporção entre CBD e THC - ou será que o CBD isolado é mais vantajoso?
- Qual o real benefício clínico do CBD, quando testado em ensaios bem desenhados (randomizados, duplo-cegos, com amostras maiores e acompanhamentos de longo prazo), que reduzam o viés do placebo?
- Quais são os efeitos adversos potenciais a longo prazo, especialmente em idosos?

A mensagem que queremos deixar é clara: Continuem atentos(as) às novidades no tratamento da Doença de Parkinson, mantenham a esperança no potencial terapêutico dos medicamentos em desenvolvimento, mas sempre - sempre mesmo - perguntem e confiem nos seus médicos, principalmente se forem especialistas em distúrbios do movimento.

Para facilitar o seu acesso a profissionais de confiança, acesse a nossa Rede de Apoio, que reúne especialistas em Parkinson de todo o Brasil.

Fontes:
https://www.prd-journal.com/article/S1353-8020(25)00552-8/abstract
https://movementdisorders.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/mds.29768

Com carinho e responsabilidade,
Dra. Joyce e Dra. Isabela.


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