Exercício físico no Parkinson: na dose certa é remédio, demais pode ser problema?
Exercício físico no Parkinson é benéfico, necessário e potencialmente neuroprotetor - por isso, é obrigatório. Logo, quando mais, melhor, ainda que em excesso? Compartilhamos com vocês 2 histórias que exemplificam os riscos da atividade física exagerada e a necessidade de iniciar no ritmo de cada um, com supervisão, respeitando os limites.
Já está amplamente estabelecido na literatura científica, com evidências robustas, que o exercício físico promove melhora dos sintomas motores da Doença de Parkinson, além de oferecer um potencial efeito neuroprotetor.
Recomendamos, como ponto de partida, ao menos 150 minutos de atividade física por semana, conforme orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso equivale a cerca de 30 minutos de exercício em cinco dias da semana.
É importante também que o tipo de atividade física seja variado, combinando exercícios aeróbicos, de resistência (força) e de flexibilidade, para garantir um impacto mais abrangente na saúde motora e funcional do paciente.
Neste ano, um artigo publicado na revista Parkinsonism and Related Disorders por Seemiller e colaboradores levantou uma importante questão: será que o exercício físico traz benefícios cognitivos para pessoas com Parkinson de forma dose-dependente? Ou seja, quanto mais exercício, melhor a memória?
Para investigar essa hipótese, os autores avaliaram o desempenho cognitivo de 200 pacientes com Doença de Parkinson e correlacionaram os resultados com a quantidade de atividade física praticada. Os achados foram claros: houve uma melhora na performance cognitiva proporcional ao nível de atividade física, confirmando uma relação dose-dependente.
O dado mais marcante foi a diferença entre os pacientes sedentários e aqueles que praticavam atividades leves, indicando que mesmo uma pequena quantidade de exercício já pode promover benefícios significativos para a cognição.
Diante desse cenário - em que a atividade física é amplamente recomendada por médicos para o tratamento da Doença de Parkinson, com evidências de efeito neuroprotetor e até mesmo benefícios cognitivos proporcionais à sua intensidade - surge duas dúvidas legítimas:
1. Será que quanto mais exercício, melhor, mesmo que em níveis exaustivos?
2. Seria possível tratar o Parkinson exclusivamente com atividade física, dispensando outras abordagens e até mesmo revertendo a doença?
Para refletir sobre essas questões, trago dois casos clínicos apresentados em um artigo publicado neste mês de abril na Movement Disorders Clinical Practice, por Boon L e colaboradores. O estudo aborda justamente os limites do exercício físico na Doença de Parkinson e levanta uma importante discussão sobre os riscos do overexercise (exercício em excesso).
História 1:
Mulher de 62 anos, com diagnóstico de Doença de Parkinson, em uso de levodopa/carbidopa 100/25 mg três vezes ao dia. Antes sedentária, foi recomendada realizada caminhada três vezes por semana por orientação médica.
Após três meses, retornou ao consultório queixando-se de fadiga e perda de peso. Durante a consulta, seu esposo relatou que havia comprado uma esteira, e a paciente passou a caminhar três vezes ao dia, além de praticar yoga e outras aulas esportivas, sem um ajuste nutricional adequado.
Ao ser questionada, a paciente afirmou acreditar que, com a prática intensa de exercícios, poderia reverter a doença.
Conduta: Redução do volume de atividade física, com reintrodução da caminhada leve três vezes por semana e orientação nutricional. Não foi necessário ajuste na medicação. Após seis meses, houve melhora significativa da fadiga e estabilização do peso corporal.
História 2
Homem de 70 anos, com Doença de Parkinson diagnosticada há três anos, em uso de levodopa/carbidopa 100/25 mg quatro vezes ao dia. Com histórico prévio de sedentarismo, passou a se exercitar de forma intensa, utilizando a esteira e realizando trilhas de longas distâncias com frequência.
Em duas ocasiões, durante essas atividades, apresentou crises rígido-acinéticas (ficando completamente travado), necessitando de atendimento emergencial no pronto-socorro.
O paciente relatou acreditar que, quanto mais atividade física realizasse, maiores seriam suas chances de reverter a doença.
Essas duas histórias ilustram bem situações de overexercise, motivadas pela crença de que o aumento exagerado da atividade física poderia reverter a Doença de Parkinson.
Ao analisarmos os casos, percebemos um ponto crucial: sem uma investigação clínica cuidadosa - ou seja, sem uma boa escuta e diálogo com o paciente - sintomas como fadiga podem ser interpretados de forma equivocada. Em vez de reconhecer que a fadiga pode estar relacionada ao excesso de exercício, o profissional de saúde pode assumir que se trata de um sintoma não motor da doença ou de um quadro depressivo, prescrevendo, por exemplo, antidepressivos de forma desnecessária.
Além disso, o excesso de atividade física pode levar a complicações importantes, como as crises acinético-rígidas (episódios de travamento motor), que podem exigir atendimento emergencial e comprometer seriamente a segurança e a qualidade de vida do paciente.
Esses relatos reforçam uma mensagem essencial: o exercício físico, quando bem dosado, é um aliado poderoso e indispensável no manejo da Doença de Parkinson. Deve ser prescrito a todos os pacientes, com orientação profissional adequada. Porém, em excesso, ele pode se transformar em um vilão, desencadeando sintomas como fadiga intensa, perda de peso e crises motoras.
Com isso, deixamos algumas reflexões importantes:
1. Nosso objetivo com este post, de forma alguma, é desencorajar a prática de atividade física. Muito pelo contrário: o exercício deve ser recomendado a todos os pacientes com Doença de Parkinson, tanto pelos seus comprovados benefícios na melhora dos sintomas motores (evidenciados por estudos e observados diariamente por nós, neurologistas, na prática clínica), quanto pelo seu potencial efeito neuroprotetor, ou seja, a possibilidade de retardar a progressão da doença.
2. Nosso alerta é sobre os riscos do excesso. Por isso, siga sempre a orientação do seu médico e, sempre que possível, conte com o acompanhamento de um educador físico qualificado. Se você era sedentário, comece devagar e vá progredindo conforme seu corpo permitir. Lembre-se:
- 1x por semana já é melhor do que nenhuma,
- 2x é melhor do que 1x, e assim por diante.
- Não é preciso começar com intensidade máxima. Respeite seus limites e seu condicionamento físico.
3. Se você tem comorbidades cardiovasculares - como hipertensão, diabetes ou histórico de infarto - é fundamental que você consulte seu cardiologista antes de iniciar um programa de exercícios. Alinhe com ele e com seu neurologista qual é a carga ideal e segura de atividade física para o seu caso.
4. Uma vez iniciada a prática regular de exercícios, lembre-se de ajustar também a alimentação. Não treine em jejum - faça uma refeição calórica antes do exercício e, ao longo do dia, adeque sua ingestão calórica ao aumento do gasto energético. Se possível, procure um nutricionista para uma orientação personalizada.
5. Por fim, é essencial reforçar: a atividade física, embora seja uma aliada poderosa e potencialmente neuroprotetora, não substitui o tratamento medicamentoso e não cura a doença. Precisamos combater as informações distorcidas que muitas vezes circulam na internet.
Em resumo: Exercício físico no Parkinson é benéfico, necessário e potencialmente neuroprotetor - por isso, é obrigatório. Comece no seu ritmo, com supervisão, respeitando seus limites. Depois, conforme sua evolução, vá otimizando seu rendimento de forma segura e consciente.
Com carinho,
Dra. Joyce e Dra. Isabela
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