STF cobra exames que comprovem Parkinson em Collor: ausência de laudos exclui o diagnóstico?
O ministro Alexandre de Moraes solicitou à defesa do ex-presidente Fernando Collor de Mello - condenado à prisão por corrupção e lavagem de dinheiro - que apresente, na íntegra, os exames que comprovem o diagnóstico de Doença de Parkinson. A decisão abre uma oportunidade interessante para refletirmos: a ausência de exames alterados descarta automaticamente o diagnóstico de Parkinson? E se a defesa não apresentar nenhum exame ou entregar laudos completamente normais, isso significa que a doença está descartada?
Vamos aproveitar esse episódio do cenário político para entender melhor os critérios diagnósticos da Doença de Parkinson e discutir os exames complementares são necessários para o diagnóstico.
Antes de mais nada, o que está acontecendo no cenário político?
Na última sexta-feira (25/04/25), o ex-presidente Fernando Collor de Mello foi preso por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após ter sido condenado a 8 anos e 10 meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.
Ao dar entrada no presídio de Maceió (AL), Collor afirmou que faz uso de medicamentos para tratar Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) e Doença de Parkinson. Curiosamente, durante a audiência de custódia, ele havia negado o uso de qualquer medicamento. Mais tarde, listou os remédios que estaria utilizando, incluindo a Rasagilina, um fármaco usado no tratamento da Doença de Parkinson, embora não tenha conseguido informar a dose correta.
Além disso, durante a mesma audiência, o ex-presidente:
- Confundiu o nome da rua de seu endereço: disse Avenida Otacílio Almeida em vez de Avenida Álvaro Otacílio;
- Errou a numeração da própria residência;
- Perguntou ao juiz auxiliar se 18 anos é maior de idade ao ser questionado sobre seus filhos.
A defesa do ex-presidente solicitou ao STF que ele seja transferido para prisão domiciliar, alegando motivos de saúde.
Segundo matéria publicada hoje no site O Globo, o pedido está sendo analisado por Moraes, que determinou, em despacho na manhã desta terça-feira, que a defesa de Collor apresente a íntegra dos exames realizados, inclusive os exames de imagem. No mesmo despacho, o ministro também questionou a ausência de exames indicativos da Doença de Parkinson realizados entre 2019 e 2022. O site UOL informou que estes exames que comprovem o diagnóstico devem ser providenciados em até 48 horas.
Ao ler essas matérias, dois pontos nos chamaram a atenção e gostaríamos de compartilhar com vocês:
Ponto 1: A demanda pelos exames que comprovem o diagnóstico de Parkinson. São, de fato, necessários?
Alexandre de Moraes solicitou que a defesa do ex-presidente apresente na íntegra os exames, e questionou a ausência de exames realizados entre 2019 e 2022 que sejam indicativos da Doença de Parkinson.
Mesmo que a equipe de defesa não apresente exames complementares realizados nesse período, o diagnóstico de Doença de Parkinson ainda assim não estará excluído. Isso ocorre porque o diagnóstico dessa condição é CLÍNICO, ou seja, baseado em uma história detalhada e em um exame físico neurológico minucioso, ambos direcionados à identificação de sintomas motores e não motores característicos da doença. Além disso, a resposta à levodopa - com melhora expressiva dos sintomas após uso da medicação dopaminérgica - é um critério importante de confirmação diagnóstica. Vejam que são etapas realizadas por um neurologista em um consultório médico.
A solicitação de exames laboratoriais ou de imagem não é mandatória para o diagnóstico da Doença de Parkinson. Esses exames devem ser considerados apenas quando há dúvida diagnóstica ou necessidade de excluir outras condições. Nos casos típicos de Parkinson, os exames de imagem como ressonância magnética (RM) ou tomografia computadorizada (TC) costumam ser normais, sem alterações estruturais cerebrais. Portanto, mesmo que os exames apresentados estejam normais, isso não confirma nem exclui o diagnóstico.
Moraes, por ter formação na área do Direito e Ciência Política, naturalmente não tem a obrigação de saber que o diagnóstico da Doença de Parkinson é clínico e que os exames complementares são dispensáveis diante de um quadro típico. No entanto, caso haja uma consultoria neurológica envolvida no caso, espera-se que esse ponto técnico (que todo neurologista obrigatoriamente deve saber) seja corretamente esclarecido.
Aproveitamos o ensejo para destacar que, como o diagnóstico depende da avaliação clínica feita por um neurologista, quanto maior a experiência do profissional, maior a chance de acerto. Isso é o que chamamos de acurácia diagnóstica. Estudos apontam que:
Clínicos gerais têm acurácia de aproximadamente 87%;
Neurologistas gerais, cerca de 90%;
Neurologistas especialistas em distúrbios do movimento, 97%.
Por isso, na aba Rede de Apoio, deixamos disponível uma lista de neurologistas especialistas em Parkinson organizados por cidade, para facilitar o seu acesso ao profissional mais capacitado para o seu caso.
Ponto 2: Os lapsos cognitivos observados durante a audiência de custódia
Foi mencionado na matéria que Collor cometeu alguns equívocos, como confundir o endereço residencial e demonstrar confusão com informações conceituais. Esses lapsos podem ter sido causados pelo estresse da situação - algo perfeitamente plausível. No entanto, é importante considerar que Collor tem 75 anos e, caso seja realmente portador de Doença de Parkinson, está sim sob risco de apresentar alterações cognitivas decorrentes da própria doença.
Muitas pessoas ainda associam a Doença de Parkinson exclusivamente a sintomas motores, como tremores e rigidez. No entanto, à medida que a doença progride, o processo neurodegenerativo pode atingir também áreas cerebrais responsáveis pela cognição. Estima-se que cerca de 60% dos pacientes desenvolvam alterações cognitivas após 8 a 10 anos de evolução da doença.
Diferentemente do que ocorre na Doença de Alzheimer, em que os esquecimentos de fatos recentes são típicos, os pacientes com Parkinson que apresentam declínio cognitivo costumam desenvolver:
- Desatenção (ficam avuados, aéreos);
- Desorganização mental;
- Dificuldade em executar tarefas sequenciais e planejamento;
- Desorientação espacial (cometendo erros ao dirigir ou ao se localizar, por exemplo).
Por isso, é fundamental realizar avaliações cognitivas periódicas e completas, sempre adaptadas à realidade e à evolução clínica de cada paciente.
Com essa passagem política, reforçamos que:
- O diagnóstico de Parkinson é clínico e não depende de exames complementares.
- O declínio cognitivo pode acontecer com a evolução da doença de Parkinson e gera mais desatenção e desorganização que perda de memória recente.
Finalizamos: o post é desprovido de qualquer viés político e seu único intuito é informar de maneira clara e embasada, para que você possa ler matérias com um olhar crítico e com mais bagagem de conhecimento, .
Com carinho e responsabilidade,
Dra. Joyce e Dra. Isabela
Matérias citadas:
- https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2025/04/29/moraes-da-48-horas-para-defesa-de-collor-enviar-exames-que-comprovem-parkinson.htm
- https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/04/29/collor-informou-em-presidio-que-toma-quatro-antidepressivos-e-remedio-para-parkinson-apos-negar-uso-para-juiz.ghtml
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