Muito além do que se vê! Como o Parkinson pode mexer com o seu humor e a sua memória.

A doença de Parkinson vai além dos sintomas motores que conseguimos ver a olho nu. A doença pode impactar também o humor, a memória e comportamento e reconhecer cedo esses sintomas permite tratá-los e preservar a qualidade de vida.

Quando pensamos em doença de Parkinson, a primeira imagem costuma ser a do tremor nas mãos, da lentidão ou da rigidez muscular. Mas o cérebro não é feito de um único fio: ele é uma verdadeira central de sentimentos e pensamentos, e o Parkinson também pode balançar esses circuitos.
Os médicos chamam essas alterações de sintomas não-motores ou neuropsiquiátricos: problemas de humor, ansiedade, alucinações, compulsões e dificuldades de memória que podem aparecer em qualquer fase da doença.

O que de fato acontece?
Estudos de longo prazo mostram que esses sintomas são muito comuns:

- Depressão atinge de 5 a 20 % dos pacientes, e formas mais leves podem chegar a um terço dos casos.

- Ansiedade (preocupação excessiva, crises de pânico, fobia social) pode aparecer em até 40 % dos pacientes.

- Psicose (ver ou ouvir coisas que não existem) pode surgir em mais da metade dos pacientes ao longo da vida com Parkinson

- Problemas de memória e raciocínio: já no diagnóstico, cerca de um terço apresenta algum grau de comprometimento cognitivo, mesmo que leve.

- Compulsões por compras, jogo, comida ou sexo afetam entre 14 e 30 %, principalmente em quem usa doses altas de alguns medicamentos dopaminérgicos.

- Apatia (aquela falta de vontade para iniciar atividades) aparece em cerca de 40 % dos pacientes.

Esses problemas não são sinal de fraqueza nem surgem apenas porque a pessoa está triste com o diagnóstico. Pesquisas mostram que o Parkinson altera não só a dopamina, mas também a serotonina, a noradrenalina e a acetilcolina, substâncias que são a base de comunicação entre as células nervosas e influenciam nosso humor, motivação e memória. Além disso, algumas medicações usadas para controlar os movimentos na doença de Parkinson podem, em doses altas, desencadear ou piorar alucinações e dificuldades de controle de impulsos.

> Como reconhecer cedo?
Muitas vezes o próprio paciente não percebe que está mais retraído, ansioso ou esquecendo palavras; quem nota primeiro é a família ou o cuidador. Por isso, vale levar um acompanhante às consultas e ser sincero ao responder às perguntas do médico. Escalas simples de perguntas, usadas no consultório, ajudam a rastrear depressão, ansiedade ou alterações de pensamento de forma rápida.

> O que a ciência recomenda fazer?

1) Ajustar o tratamento do Parkinson:
Diminuir ou trocar certas medicações pode aliviar alucinações ou compulsões, sem piorar o movimento. Mas atenção!! Qualquer mudança precisa ser orientada pelo seu neurologista, nunca interrompa remédios por conta própria.

2) Usar medicamentos psiquiátricos quando necessário:
Antidepressivos costumam melhorar depressão e ansiedade e não atrapalham o controle dos sintomas motores da doença.
Para alucinações, antipsicóticos específicos podem oferecer alívio, mas exigem monitorização periódica e ajustes mais cauteloso.
Para memória, estudos mostram benefícios do uso de medicação específica em casos demência associada ao Parkinson.

3) Colocar o corpo e a mente em movimento
Exercícios aeróbicos, dança, tai chi, yoga e fisioterapia não são complementos importantes! Eles fazem parte do tratamento, porque melhoram humor, sono e, em alguns casos, funções cognitivas.

4) Terapias
A terapia cognitivo-comportamental, treinamentos de atenção plena (mindfulness) e grupos de apoio reduzem a ansiedade, a depressão e que podem refletir em melhora de cognição também.

5) Estimulação cerebral (para casos selecionados)
Técnicas como estimulação magnética (rTMS) ou transcraniana (tDCS) e mesmo o implante de DBS em áreas específicas vêm sendo estudadas para tratamento de apatia e depressão de dificil controle, mas devem ser avaliadas em centros especializados.

> Pequenas atitudes que fazem grande diferença:

- Rotina de sono: ir para a cama e levantar nos mesmos horários ajuda a regular humor e memória.

- Encontros sociais: conversar, jogar cartas ou participar de grupos mantém o cérebro ativo.

- Registrar dúvidas: anotar questões e levar às consultas evita esquecer assuntos importantes.

- Apoio emocional: dividir sentimentos com familiares, outros pacientes ou profissionais de saúde mental diminui o peso do dia a dia.

Leve esta mensagem com você!
Os sintomas de humor, comportamento e memória fazem parte da doença de Parkinson tanto quanto os sintomas motores. Reconhecê-los cedo e conversar com a equipe de saúde permite começar tratamentos eficazes e manter a qualidade de vida. Se algo no seu jeito de sentir ou pensar mudou, não espere: fale com seu médico. Você não está sozinho nessa jornada.

Um Abraço

Dra. Isabela e Dra. Joyce

Fonte: Management of psychiatric and cognitive complications in Parkinson?s disease. Weintraub et al. BMJ 2022.


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